Nesse esforço destaca-se a busca desesperada pela economicidade da produção dos novos veículos híbridos-elétricos e elétricos puros, de forma a construir definitivamente uma nova fronteira na tecnologia alternativa ao petróleo, avançando, como em tempo algum antes, nos campos da eficiência energética e na eliminação de gases poluentes emitidos pelos motores à explosão.
As novas tecnologias são naturalmente um imenso sorvedouro de recursos de toda a ordem: na etapa do desenvolvimento científico, pelas montadoras envolvidas, e nas subsequentes, pelos governos, ao estimular a aquisição do veículo elétrico pelo consumidor final por meio da concessão de subsídios fiscais, como nos Estados Unidos, França e Japão, ou provendo as condições de infraestrutura de abastecimento, como em Israel e na Dinamarca.
No campo estrito do desenvolvimento as montadoras que a ele se aplicam cercam todo o processo de um estremado e compreensível zelo quanto à retenção do seu domínio exclusivo, sendo referencial, nesse particular, o que se passou com a Renault, no início deste ano, quando presumiu haver acontecido algum tipo de vazamento de informações reservadas, relacionadas à gestação do seu carro elétrico. O assunto, como amplamente noticiado na época, teve até reflexos na delicada área político-diplomática, uma vez que houve especulações de que fabricante chinês estaria de alguma forma envolvido na obtenção desses segredos.
Em um contexto como esse é fácil concluir que veículos elétricos da classe dos compactos, como os que estão sendo produzidos, necessitarão anos de vendas de bom volume para que as montadoras que os produzem obtenham a economicidade de produção necessária a retornar-lhes os investimentos de extraordinária monta que hoje fazem para torná-lo viável.
Sendo apenas um limitadíssimo grupo de marcas que, neste exato momento, se faz presente em segmento tão solitário quanto pretendidamente promissor a longo prazo, que elas estimam como médio prazo..., é de importância fundamental que procurem fazê-los instrumentos de um marketing institucional de pioneirismo que lhes pavimente o caminho para uma presença de liderança, no momento em que as demais marcas a elas se antepuserem na disputa cruenta que se travará no mercado mundial dos híbridos e elétricos.
Neste ambiente de pré-beligerância elétrica é razoável prever-se que as marcas mundiais - as que foram direta e inacreditavelmente impactadas em sua histórica solidez pela crise de 2008-2009, e até as japonesas, por conta dos desastres naturais do terremoto e vazamento da usina nuclear -, possam intensificar seus projetos de redução de plataformas, gestando produtos de massa cada vez mais apartados de supostas peculiaridades de gosto e tendências regionais, e priorizando, por meio de uma nova versão do carro mundial, a construção de um mercado único capaz de tornar viável, pela escala gigantesca, crescente economicidade de produção e, portanto, de competitividade.
Assumindo-se como provável a confirmação dessa tendência é igualmente razoável estimar-se que os tradicionais controladores do mercado mundial de veículos tendam a localizar seus centros de inteligência, pesquisa e criação, no âmbito de suas sedes, para os quais convergirão compulsoriamente as contribuições das suas afiliadas nos diversos outros países, tudo dentro das competências que foram a estas facultadas.
Exceções a essa estratégia certamente terão lugar de maneira mais precisa nos mercados emergentes, onde exista a ameaça de empresas nacionais, como na India e na China, e até na Rússia. Nesses locais muito provavelmente se expandirão iniciativas como a que protagonizaram até agora as marcas ocidentais com fabricantes chinesas: a Volkswagen com a SAIC e a FAW, a GM com a SAIC, a Volvo, de controle total da Geely, com a Siemens, a Daimler com a BAIC, todas envolvendo mútuo desenvolvimento de veículos elétricos.
Na mesma linha de conclusões, as atuais montadoras mundiais, por consequencia, terão certamente muito a ganhar na construção dessa escala formidável se os mercados denominados de grande expansividade, como o Brasil, atuarem apenas como receptores de sua tecnologia, a do carro elétrico e de qualquer um outro, e onde os veículos continuarão a ser apenas montados ao ritmo da chamada tropicalização e onde pouparão bilhões em pesquisa e criação.
Para compartilhar tecnologia aqui no Brasil, o que é perfeitamente compreensível, os tradicionais timoneiros do transatlântico automotivo precisam ter interlocutores da mesma estirpe com quem negociar... e não fazê-lo apenas negociando consigo mesmos!
Nas anunciadas vésperas de um novo regime regulador, espera-se que os meios oficiais olhem o mundo automotivo sob a ótica de um Brasil que não pode ser paroquial. Um novo Brasil automotivo cuja independência no que tange ao domínio da pesquisa, da criação e da capacidade de inovar se encante menos com o canto de sereia de uns poucos milhares de empregos, e que se disponha a investir contra a dorminhoca e contemplativa atitude dos, hoje, mais que adultos grupos nacionais.
Grupos que podem rivalizar com alguns dos novos entrantes: tanto no que diz respeito à facilidade de tomar recursos do BNDES quanto pela oferta extraordinária de talentos caboclos, com experiência de mais de 50 anos. Lembremo-nos de que nenhum dos chamados emergentes tem capital humano com esse lastro.
Artigo publicado na edição 269 da Revista AutoData, janeiro de 2012.